As lições da invasão do Pinheirinho

As lições da invasão do Pinheirinho

Por Horácio Morita

A invasão do Pinheirinho em São José dos Campos não significou apenas mais uma agressão do governo, da Polícia Militar e da Justiça contra a população dos sem-teto, mas serve de alerta para todos os trabalhadores e o povo brasileiro. Só nos momentos de conflito se conhece a Direita e o que ela é capaz de fazer para defender os seus interesses.

Mas antes, é preciso entender melhor o conceito de Direita e de Elite. O conceito de Elite diz respeito a uma classe social no poder, ou seja, a classe burguesa que exerce o poder político: faz as leis, dita as regras e normas, controla setores da economia, ocupa os setores chaves do governo, controla a mídia e as informações que podem ou não serem divulgadas, enfim, constitui o aparato ideológico, dita o que é certo ou errado, o que pode ou não, quem pode e quem não pode.

Direita já é um conceito mais amplo e inclui, além da elite burguesa, vários setores da sociedade civil. Inclui a chamada classe média alienada que vive à sombra e à custa da elite sem estar no poder, pois não se trata de classe social, mas é igualmente responsável pela manutenção dessa elite no poder e pela manutenção do status quo, portanto é responsável pela manutenção e reprodução da ideologia dominante.

Fala-se tanto em corrupção no governo, mas esquecemos de que para haver corruptos é necessário haver corruptores. No caso do Pinheirinho, há uma congregação de interesses corruptos: O grupo do empresário Naji Nahas, proprietário do terreno, que por sua vez deve milhões em impostos à prefeitura; a própria prefeitura na figura de alguns personagens políticos e os empresários da construção civil e especuladores imobiliários em geral. A prefeitura intencionalmente deixou que a população dos sem-tetos ocupasse a área, para que gradativamente fosse degradada e desvalorizada. Prato cheio para a cobiça imobiliária, a associação entre prefeitura e especuladores imobiliários exige a reintegração de posse dessa área. A isso chamamos de corrupção da prefeitura, dos empresários, da justiça e da polícia. Quanto custa esse aparato policial de 2000 homens e os equipamentos? Quanto custa a assinatura de um juiz e do aparato judicial? Quanto custa o silêncio da rede Globo?

O que a direita espera do governo? Ela quer financiamentos, subsídios, perdão de suas dívidas, isenção de impostos e principalmente, ela quer que o Estado reprima qualquer tipo de mobilização popular que ameace seus interesses patrimoniais.

O Estado é a representação política da sociedade. É através dele que as pessoas se assumem como cidadãos e através dele que a sociedade se constitui como sociedade política e, portanto através dele que os cidadãos se relacionam entre si. Assim, as ações do Estado sempre tem o caráter de classe, promovendo os interesses de certos setores sociais em detrimento de outros, como no caso da invasão do Pinheirinho.

O mesmo aconteceu com a Cracolândia em São Paulo. A prefeitura deixou que parte da área da Luz ficasse degradada e desvalorizada pela ocupação dos usuários de drogas, traficantes e marginais. Cartão postal de São Paulo no início do século XX: Estação da Luz, Jardim da luz, prédios históricos do governo do Estado, hoje restaurados convivem junto com a cracolândia, que deverá ser desocupada e demolida para dar lugar à modernidade.Empreendedores e especuladores imobiliários associados à prefeitura vislumbram o lucro espetacular desse empreendimento e assim, expulsam os moradores e usuários do local através da repressão policial. A isso também chamamos de corrupção.

Coincidência ou não, as duas cidades são governadas pelo mesmo consórcio Demo-Tucano.

Antes de qualquer conclusão é preciso identificar e distinguir a Direita como inimiga da classe trabalhadora e do povo brasileiro. Sem isso, é impossível compreender o estado de guerra em que se encontram as ruas da cidade, com gigantesco aparato policial, armas, bombas, tiros, ônibus e carros incendiados etc., algo próximo das guerras no Oriente.

Para a Direita e para alguns setores da classe média alienada, a população dos sem-tetos do Pinheirinho são entulhos que atrapalham o progresso do país. São vagabundos, desempregados, preguiçosos, ladrões enfim, cidadãos de segunda classe. Na verdade, são trabalhadores pobres e miseráveis que não tem onde morar, vítimas dos programas habitacionais do governo que nunca chegam até eles.São cidadãos com os mesmos direitos e deveres de qualquer cidadão garantidos por um Estado Democrático.

A democracia precisa avançar. Um governo democraticamente eleito precisa garantir esses direitos.É necessário que deixemos de ser votantes, aqueles que votam mas não elegem ninguém, para nos tornarmos cidadãos que escolhem e elegem conscientemente os seus representantes políticos.

O episódio do Pinheirinho mostrou que sociedade está desarticulada, que os movimentos sociais não estão tão organizados como se imaginava. As lutas sociais precisam ser politizadas, inclusive na esfera institucional. A sociedade civil e as instituições pouco ou nada puderam fazer. Onde estão os deputados e vereadores? Onde estão os partidos de esquerda? Onde estão a igreja, as comunidades eclesiais de base e as pastorais? E os Direitos Humanos? E os sindicatos? E as organizações de bairros? E os órgãos de classe? E o movimento estudantil? E a Justiça? (Ministério Público e Defensoria Pública?)

A Justiça Social deve estar acima das leis que protegem o patrimônio.

A Direita não hesita em derramar o sangue dos outros quando se trata de defender os seus interesses patrimoniais.

O episódio do Pinheirinho é vergonhoso para a nossa democracia. O mundo inteiro viu e condenou a atitude do governo. Mas o que assusta e serve de alerta para todo o povo brasileiro é que a receita utilizada pelo governo neste caso, foi um sucesso, nas palavras do governador de São Paulo e deverá ser repetida nos outros municípios governados pelo consórcio Demo-Tucano. São José dos Campos é o último baluarte da direita paulista, é daqui que partem todas as experiências desse tipo, e pasmem!, a classe média alienada aplaude de camarote.

 

Anúncios

Sobre Efeito e Causa

Um espaço plenamente democrático que busca desvendar a raíz escondida dos acontecimentos; Política, Religião, Arte, Comportamento, Cultura, Economia, tudo analisado e comentado à partir do olhar que a mídia e os governos não querem que você saiba
Esse post foi publicado em Desmascarando o poder, habitação, são josé, sociedade, violência. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para As lições da invasão do Pinheirinho

  1. Pingback: As lições da invasão do Pinheirinho – Fratrermei

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s