Pinheirinho e nazismo: Como foi que chegamos a isso?

É fato comum encontrar pessoas que se dizem horrorizadas diante de imagens e impressões sobre a Segunda Guerra Mundial e suas cruéis motivações e consequências que se ponham questionar:

– Como foi que se chegou nisso?

 

A resposta, por mais estranhamento que cause num primeiro instante, flerta com nossas rotinas cotidianas mais do que se imagina e se instala dissimuladamente em nossos hábitos, qual um veneno invisível que vai entrando pelos ouvidos e olhos e apodrecendo tudo que de mais humano temos por dentro.

 

Começa como uma exaltada manifestação de amor pela comunidade, pela cidade, pelo Estado, pelo país, na ânsia de evocar os sentimentos mais nobres de pertencimento a uma terra e a uma comunidade, mas aos poucos, vai se metamorfoseando numa suposta ameaça invisível que vem de fora, e que, não se sabe bem por que (aliás, nunca se explica esse porque, simplesmente porque não existe, é mera ficção e suspense) quer a todo custo tirar de nós, agora legítimos e únicos herdeiros dessa terra concedida por Deus, o nosso direito legítimo e inalienável de sermos donos exclusivos de tudo que há sobre essa terra.

 

A partir desse momento, as relações amistosas e cordiais que uniam a comunidade e a faziam prosperar e crescer são rompidas. O outro é visto com reservas, com desconfiança, como alguém que vem aqui só para roubar o que é nosso. O amor, que é um sentimento de partilha, doação e pertencimento, vai adoecendo e se tornando, através do medo inculcado nos corações e mentes, numa espécie anacrônica de ciúmes, cego e doentio como qualquer ciúmes. Agora o que nos une é o medo que nos divide a todos, aliado a um sentimento de posse estúpido que nos fazem crer que somos mais merecedores e dignos de atenção que outros, que chegamos primeiro por isso temos mais direitos, de que a cidade é mais minha do que sua, de que as regras que nos beneficiam são as únicas dignas de serem respeitadas e adotadas, e ao outro cabe apenas o desprezo, a retaliação e a dor por terem ousado, com sua presença, revelar que nosso mundo idealizado é bem diferente da dura realidade dos que não foram convidados a participar da festa.

 

O caso Pinheirinho, ocorrido em janeiro de 2012 é, nesse caso emblemático.

Em que diferem as manifestações hostis contra os moradores do Pinherinho, embebidas mais em ódio e vingança que nos sentimentos de justiça, solidariedade e compaixão das manifestações de apoio da classe média alemã do final da década de 30 às retaliações promovidas pelos nazistas contra os judeus?

 

Até os argumentos e métodos se assemelham: Lá os judeus foram perseguidos porque, supostamente estavam há séculos roubando as propriedades do povo alemão; aqui, os miseráveis do Pinheirinho foram perseguidos porque estariam se apropriando de terras particulares.

Lá os judeus foram arrancados violentamente de suas casas com as roupas do corpo e lançados em campos de refugiados que se tornaram depois, campos de concentração;

No Pinheirinho, os miseráveis foram arrancados à força de um pelotão de dois mil homens armados de suas casas na madrugada de um domingo apenas com as roupas do corpo e jogados num campo de refugiados montado pela prefeitura em frente ao terreno onde, por quase uma década, construiram suas vidas.

 

Sempre o mesmo método, sempre o Estado usando de sua força desproporcional sobre o cidadão apoiado no pacto silencioso e criminoso das classes médias alienadas que, por falta de uma visão de maior alcance, optam por transferir ao povo mais carente, seu bode expiatório, todas as culpas e responsabilidades pelo fracasso de suas vidas pueris e sem sentido maior.

 

Pronto o mal está feito e é irremediável.

Por mais que queiramos e procuremos justificar nosso ato à sombra do legalismo imoral e perverso, o fato é que nossas almas foram manchadas com os sonhos ceifados daquelas pessoas que só queriam um lugar para morar numa cidade onde os especuladores imobiliários dão as cartas em conluio com um governo depravado e despótico que não titubeia em sacrificar a qualidade de vida de grande parte de seu povo para servir aos interesses de uma elite corrupta e sanguinária, sem qualquer escrúpulo ou envergadura moral, e que não mede esforços nem consequências para devorar tudo que encontrar pela frente.

 

O Pinheirinho é uma prova cabal de que o monstro que produziu e permitiu o surgimento e apogeu do nazismo e do sionismo de Israel está mais vivo do que nunca e pulsando dentro de nós, de maneira que cabe a cada um de nós sufocar esse demônio que nos devora por dentro, ou sucumbir ao ódio cego devidamente maqueado pelos governantes como “amor pela cidade” que, ao final, apenas nos bestializa e nos escraviza ao que há de mais baixo, servil e degenerado.

 

Assim, antes de evocar o amor para justificar o ódio, o desrespeito pelo outro, procure se colocar em seu lugar. Imagine-se sendo escurraçado de sua casa pelas botinas da polícia; imagine seus filhos com olhos perdidos e famintos questionando: – O que vai ser de nós agora? Imagine esses homens, mulheres e crianças que só queriam ser cidadãos como você agora lançados na rua sem perspectivas, sem saber se terão onde morar ou o que comer. Imagine o que você pode ser obrigado a fazer se te forem arrancadas todas as alternativas dignas de sobrevivência.

 

Lembre que amor não combina com inflexibilidade, com ódio, com raiva, com vingança. Amor é generosidade, é a capacidade de dar de si pelo outro, de estender a mão, de partilhar e assim fortalecer toda a comunidade. Amor traz sempre coisas boas, nunca nos induz ao mal.

 

Quando novamente for convocado em seu amor pela cidade por esses déspotas, desconfie, pare e pense:

  • Quem de fato ganha com isso? –
  • O que de fato o povo de São José ganhou com a desocupação do Pinheirinho? Seis mil novos mendigos na rua? Aumento da criminalidade? Aumento do déficit habitacional?
  • Dinheiro desviado de outras necessidades públicas para atenuar os estragos causados pela ação inconsequente e precipitada?
  • Quem ganhou com isso? Quem ainda ganha com isso? É de São josé, compra as nossas brigas, vive nossas angústias, divide conosco nossos problemas?

 

No fundo, sabemos a resposta.

Se você ama mesmo a cidade, comece a espalhar amor, a estender a mão, a romper o silêncio que nos aliena a todos. Não caia nesse sentimentalismo barato que só quer nos levar para o buraco.

A história mostra onde esse ódio travestido de amor nos leva…

Rompa o ódio, desmascare os farsantes e devolvamos a cidade o amor vibrante que sempre a fez única, hospitaleira e especial.

Franklin F,A. Maciel

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Sobre Efeito e Causa

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2 respostas para Pinheirinho e nazismo: Como foi que chegamos a isso?

  1. Sandra Mendes Sampaio disse:

    Parabéns por esse texto Franklin. É para ler, refletir, ecoar.

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