O Fundo do Poço

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O Fundo do Poço
Por Franklin Maciel

Conta-se a história de um lavrador, pai de família dedicado, que todo dia saia bem cedo de casa para o trabalho na lavoura.
E todos os seus dias comprometia integralmente ao trabalho, que afinal garantia o seu sustento e de toda a família e pouco ou quase tempo algum dedicava à si mesmo.

Um dia, cumprindo religiosamente seu compromisso diário de se dirigir ao trabalho, não se sabe por qual razão, olhou para o lado e notou no pé de um morro próximo, um poço todo enfeitado com flores e, movido por uma curiosidade que nem sabia que possuía, sem dar por si, quebrando sua rotina, desviou-se do caminho e foi até o poço conferir o que tanto chamou-lhe a atenção.

O homem, que por tanto tempo nunca parou para pensar sobre a própria vida, sobre seus gostos, sobre o que lhe dava alegria, de repente se viu diante daquele poço florido e instintivamente, olhou para o fundo do poço e em suas águas paradas, viu seu rosto refletido na superfície da água.

E ficou tão encantado com a imagem que ali viu refletida, que espontaneamente sorriu, e ao receber de volta o próprio sorriso refletido, percebeu também as flores que adornavam o poço refletidas em torno de seu rosto como singela moldura e assim, arrebatado pelo inusitado, deteve-se alguns minutos apenas se admirando antes de voltar ao seu curso diário para o trabalho.

E no dia seguinte, e no outro e mais outro, sem falhar nenhum, fazia questão de parar somente para contemplar sua imagem no fundo do poço.
Logo, os minutos de contemplação viraram horas e mais e mais horas até que de repente, já não saia mais de casa para ir ao trabalho, mas para dedicar todo o seu tempo a se contemplar no fundo do poço.

Sua esposa que a tudo assistia apavorada, sem saber o que fazer diante da súbita mudança do marido que nada mais queria da vida senão entregar-se cada vez mais ao fundo do poço, tentou inúmeras vezes dissuadi-lo, mas ele, como que enfeitiçado pelo poço, agia como se não a ouvisse e se entregava cada vez mais a sua agora mórbida contemplação diária.

Sem sucesso em suas investidas, cada vez mais desesperada com o fim inevitável que previa para o marido, cada vez mais obcecado com o poço e agora com a idéia de mergulhar nele de cabeça até o fundo para encontrar sua imagem, em meio ao desespero e a certeza de que seus rogos não produziam nenhum efeito, teve um momento de divina lucidez.

E em vez de continuar implorando ao marido que não mais fosse ao poço, propôs-lhe um acordo:
Que, lá ficasse somente durante o dia e que a noite voltasse para se alimentar e descansar para assim poder se entregar mais revigorado no dia seguinte, aproveitando melhor seu momento de contemplação.

O marido aceitou o acordo proposto pela esposa e depois de passar todo o dia entregue ao poço, voltava, ao fim de cada tarde, exausto para casa, se alimentava e logo dormia para acordar bem cedo e assim aproveitar mais seus momentos junto ao poço.

Sua esposa então, esperando que ele pegasse no sono, se levantava sem fazer barulho e ia até o poço, no qual toda a noite jogava uma balde de terra e voltava para casa.
E assim procedeu por meses nessa labuta noturna.

Também durante o dia, já não empregava mais seu tempo tentando convencer o marido a desistir do poço. Arranjou um emprego, afinal alguém precisava trazer sustento para a casa nesse período onde o marido abandonou tudo para se dedicar exclusivamente ao poço, e ao marido apenas deixou claro que, se ele quisesse um dia mudar seu comportamento, ali estaria pronta a ajuda-lo.

E o tempo foi passando até que um dia, o marido em vez de procurar o poço, foi procurar a esposa e não a encontrou.
E procurou-a pela vizinhança toda e arredores e nada dela. E assim passou o dia todo à sua procura sem qualquer sucesso. No fim do dia, logo ao cair da noite, teve então a plena convicção que a perdera em função de sua obsessão pelo poço e o odiou e odiou a si mesmo por isso.

Sem saber para onde ir e o que fazer dali por diante, teve então uma reação desesperada, e resolveu enfim dar cabo de sua vida, mergulhando no fundo daquele poço, fruto de sua desgraça.

E para o poço seguiu aceleradamente afim de cumprir sua fatídica determinação.
E ao parar diante do poço, ainda resfolegante, olhou à sua volta, pediu perdão a Deus por sua fraqueza e mergulhou de cabeça no poço.
E o silêncio se fez.
E ao erguer a cabeça, em meio às águas turvas do poço, descobriu que o mesmo já não passava de uma mera poça d’água.

Foi quando sua mulher chegou trazendo consigo o último balde de terra que iria sepultar de vez aquele poço, e ao vê-lo, correu até ele, e o puxou para fora da poça d´água.
O marido então compreendeu todo o amor que sua esposa teve por ele todo esse tempo, e erguendo-se, foi até balde de terra que ela trazia, e ele mesmo, jogou sobre o que restou daquele poço, a terra que faltava para que o poço desaparecesse para sempre.
Então tomou-a nos braços, e ao redescobrir com ela o amor, nunca mais empregou seu tempo em fundos de poços.

Franklin F. A. Maciel

* Dedicado ao Amor Exigente, que com imensa dedicação, tem ajudado milhares de famílias a diminuírem os poços nos quais estavam afogando suas vidas, dando-lhes perspectiva e esperança

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